Organizadores:
Paula Guerra, Universidade do Porto, Portugal.
Lígia Dabul, Universidade Federal Fluminense, Brasil.
Augusto Santos Silva, Universidade do Porto, Portugal.
Antoine Hennion, Centre de Sociologie de l’Innovation, École des Mines – CNRS, França.

Breve Apresentação

O foco temático deste dossiê, além de potenciar um espaço de discussão sobre um vasto campo de novos e diferentes caminhos (e desafios) de investigação sobre a arte em todas as suas possibilidades, incide igualmente na abordagem das artes e da criatividade enquanto recursos de afirmação identitária em um mundo cada vez mais global e aberto. As mudanças operadas no mundo artístico – desde a década de 1980 – materializam-se em manifestações que se traduzem, em traços largos, na democratização da cultura, na culturalização da sociedade e cosmopolitização artística. Inicialmente explicadas e compreendidas como alternativas e/ou underground, diversas manifestações emergem e rompem com lógicas instituídas, assinaladas no binómio cultura cultivada versus cultura popular, corporizando novas formas de criação, mediação, recepção, convenções e canonizações (Campbell, 2013; Jürgens, 2016; Santos, 1988). Estamos perante um conjunto de manifestações simbióticas (espaços, eventos, atores) – onde pontuam pluralismo, experimentação, ecletismo e transdisciplinaridade de discursos em um quadro cultural transglobal e translocal. A sua força simbólica assenta no fato de se assumirem como metamorfoseadores de uma nova cultura, constituindo-se como novas formas de autoridade cultural (cultural turn, nos termos de Chaney, 1994).

A invenção e a improvisação artísticas têm possibilitado inúmeras redefinições dos mecanismos de diferenciação e identificação social que caracterizam o mundo contemporâneo – sendo veículos e textos fundamentais de identidade, de pertença e de enraizamento. O conjunto de artigos que o número congrega é ilustrativo da diversidade e do interesse provocado por estas mesmas questões. Privilegiou-se um conjunto bastante variado de artigos que conjugassem teoria e empiria, demonstrando a vivacidade que estes debates e questões têm alcançado no mundo de língua portuguesa e particularmente em abordagens sobre a realidade brasileira e portuguesa. Estas preocupações são tão mais importantes quanto estamos a falar de sociedades marcadas por transições e sobretudo, em tempos recentes, por crises econômicas e societais, no âmbito das quais as manifestações artísticas e musicais parecem cada vez mais assumir-se como plataformas de questionamento, refundação e revivificação identitárias (Silva et al., no prelo).

De igual modo, consideramos que a questão do território urbano é crucial para a compreensão do objeto artístico, uma vez tomada a cidade/urbano como um fenômeno intrinsecamente cultural. Algumas das razões que nos conduzem a entender as cidades como importantes polos de criatividade, inovação e efervescência acabam por estar refletidas na perspetiva de Crane (1992). Efetivamente, é nas cidades que proliferam os estilos de vida em diversidade suficiente, os quais se constituem como demonstradores expressivos da concentração de práticas sociais e culturais, tradutores e resultado dos processos de individuação e de liminaridade, facilitados pelas maiores mobilidades e o menor controle social, da busca de lógicas distintivas, ou da afirmação de identidades que tendem a ser mais transitórias, reflexivas e plurais (Guerra e Costa, 2016; Guerra, 2017). A territorialidade orgânica provida pela cidade ou contextos urbanos às manifestações artísticas que pretendemos estudar, a par da relação inerente incontornável das formas culturais urbanas a processos identitários significativos, remete-nos para um conceito igualmente incontornável – a cena. Este conceito revela-se como importante tanto mais quando existe uma forte relação do objeto de estudo com o espaço (social e territorial), com a organicidade reticular que as caracteriza, com o alternativo/ transgressor e com sentido coletivo imanente. Estruturado a partir dos conceitos art world de Becker (2010) e de campo de Bourdieu, o conceito de cena, emergido primeiramente de referências mediáticas às atividades culturais, surge como modelar no campo científico a partir dos anos 1990, através de Straw (1991) e das cultural scenes.

Sumário do dossiê

Designing Politics: Designing Respect – poder e alteridades dentro de parcerias cultuais internacionais
Laura Burocco

Arte e criação artística em contexto urbano: um estudo de caso de política pública em Porto Alegre (RS, Brasil)
Ana Luiza Carvalho da Rocha, Cornelia Eckert

Trabalho, Cultura e produção cultural: notas para uma sociologia do trabalho com arte e cultura no Brasil
André Grillo

“Fora do Eixo: Estado ou mercado?” Modos de mediação entre produção cultural, política e mercado no Brasil
Victoria Irisarri

O cotidiano como utopia: novas relações de espaço e tempo no mundo da arte contemporânea
Ana Carolina Freire Accorsi Miranda

Turnês de Guerrilha: as estratégias de empreendedorismo musical nos circuitos do rock no exterior
Luiza Bittencourt

Entre práticas e discursos: Gilberto Mendes, Willy Corrêa de Oliveira e o campo da música erudita brasileira pós 1980
Carla Delgado de Souza

A criatividade como um habitus regionalizado no campo artístico bourdieusiano
Jacques Haruo Fukushigue Jan-Chiba, Letícia Luriko Tadeo, Rafael Borim-de-Souza

Das artes tradicionais à economia criativa: a pintura indígena da Austrália e sua inserção no sistema das artes
Ilana Seltzer Goldstein

Grafites do amor, da paz e da alegria na cidade Olímpica: interfaces entre política, arte e religião no Rio 2016
Christina Vital da Cunha

António e as Variações identitárias da cultura portuguesa contemporânea
Paula Guerra

 

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